Mezinhas
Relato de um furto de biocombustível para usos medicinais, de acordo com a crença e conhecimento populares.
Quando José abriu a tampa do depósito, inalou os vapores alcoólicos e isso ajudou a que cessassem os tremores de frio. Os de medo continuaram. Desembaraçou a mangueira que trouxera enrolada no tronco, introduziu uma ponta dentro do depósito, e cerrou a boca em redor da outra ponta. Encolhido atrás de um carro, na noite fria, com cada ruído a deixá-lo em sobressalto, teve muita dificuldade em conseguir fôlego suficiente para que o combustível subisse.
O ladrar de um cão atrás de si fê-lo inspirar subitamente, e tanto boca como nariz foram invadidos por vinho do Porto. Abandonou a mangueira para lidar com os sucos gástricos que subiam para fazer companhia ao combustível, já que este tardava em chegar ao estômago. A mangueira ia jorrando o precioso líquido para o chão. Quando se apercebeu, ainda conseguiu enfiá-la no garrafão e aproveitar um ou dois litros.
Enquanto voltava a casa, encontrou tranquilidade no ruído que o vinho fazia contra as paredes do recipiente.
Chlap, chlap.
Se a noite corresse bem, o dia seguinte haveria de ser o melhor dos últimos tempos.
Quando entrou em casa, colocou o pote sobre as chamas que ainda ardiam na lareira. Encheu-o com metade do vinho e juntou-lhe uma cebola, cortada em quartos.
Só depois foi ver se ela estava bem.
Salomé encontrava-se na cama, como seria de esperar. Tossia de forma ritmada. Ouvia-se a expetoração a gorgolhar-lhe nos pulmões, mas não tinha força para a expelir.
José voltou à cozinha, onde os vapores alcoólicos já se iam espalhando por toda a divisão. Arrastou o pote para junto da cama de Salomé. Arrastou-a, também a ela, para o chão e colocou-lhe a cabeça sobre o vinho com cebola, tapada pelo lençol.
— Não deixes sair nada. Vai fazer-te bem.
Deixou-a e foi preparar o resto. Misturou o que sobrava do vinho com água morna e café. Enquanto o fazia, foi-se admirando por ouvir a tosse a espaçar-se.
Encheu a seringa e a pequena mangueira de borracha.
Quando voltou ao quarto, Salomé já fora invadida por gargalhadas. Ria-se como uma criança, ainda com o lençol sobre a cabeça e o vinho a curá-la.
José sorriu. Depois do enema, de certeza que a irmã ficaria curada.
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