A Ilha do Celtismo
Notícia publicada no jornal Mar do Norte, a 08/04/1919
A Ilha do Celtismo
Como é conhecimento dos leitores, no passado dia 2 foi publicado neste jornal (Mar do Norte) que Leonardo José Coimbra tinha tornado pública a sua intenção de recuperar o «Couto Misto» como um local para impulsionar a cultura partilhada entre Galiza e Portugal, para «o renascimento da União Galaico-Portuguesa», bem como elemento e provedor da futura criação da «Região Galega», enquanto novo país apoiado pela Monarquia do Norte portuguesa.
Este jornal apresenta agora informações insólitas que ocorreram no panorama europeu. O primeiro-ministro francês, Georges Clemenceau, ciente desta notícia, e apesar de ser uma figura de destaque nas negociações cruciais da Conferência de Paz de Paris (após a Primeira Guerra Mundial), com base nesta ideia de um espaço comum para fortalecer ainda mais a cultura partilhada, tomou a decisão de transferir o edifício da Orangerie, construído em 1852 durante o reinado do Imperador Napoleão III, para a «Île de la Conférence» – «Ilha da Conferência». O objetivo será instalar no edifício uma exposição permanente sobre a cultura celta, para que esta tradição atlântica seja revitalizada e proporcione uma união permanente e contínua que nos permita evitar outra guerra mundial. Que melhor local para esta ideia do que a também conhecida como «Ilha da Paz»?
É, ainda, igualmente chamada de «Ilha dos Faisões», embora não seja claro o porquê deste nome. No século XIX, Victor Hugo escreveu que, no máximo, o visitante encontraria uma vaca e «três patos», «sem dúvida, grupos contratados para representar faisões para os visitantes». Independentemente de como se escolha chamar-lhe, a ilha situa-se na foz do rio Bidasoa, entre Irún e Hendaya, sendo um ponto estratégico por onde passam o Caminho do Norte de Santiago e o Caminho Basco Interior. A ilha é visível da rota jacobina na zona de Irún, perto da fronteira franco-espanhola. O Tratado dos Pirenéus (7 de novembro de 1659), assinado entre Mazarino e Dom Luís de Haro, que pôs fim às hostilidades franco-espanholas, foi assinado nesta ilha, onde também se realizou o casamento entre a filha de Filipe IV de Espanha, Maria Teresa, e o rei Luís XIV de França. Este episódio histórico encontra-se retratado numa pintura e numa tapeçaria.

À esquerda, L’Entrevue de Louis XIV et Philippe IV sur l’île des Faisans, de Jacques Laumosnier (1660). À direita: tapeçaria de Charles Le Brun (1680) representando a mesma cena (Embaixada de França em Madrid).
Esta ilha é o território partilhado mais pequeno do mundo, formalizado pelo Tratado de Bayonne de 1856. Situada perto da foz do rio Bidasoa, mede aproximadamente 215 metros de comprimento por 38 metros de largura (cerca de 6 820 metros quadrados). O acordo atual data de 27 de março de 1901. Esta área era um território habitado essencialmente por povos pré-romanos de origem basca, nas proximidades da qual se localizava Oiasso (atual Irún), e que mais tarde se tornou parte do Império Romano. A ilha tornou-se um símbolo histórico de paz, alternando a soberania entre Espanha e França a cada seis meses.
Clemenceau, além de político e médico, é também um apaixonado pela arte, o que explica a decisão de reconstruir o pavilhão no qual Diego Velázquez tanto trabalhara para que Espanha e França pudessem selar o Tratado de Paz dos Pirenéus em 1660[1]. Enquanto elemento de identidade cultural na Europa Atlântica, o edifício da Orangerie pretende estabelecer um quadro estável de colaboração entre nações e regiões do arco atlântico europeu com tradição celta, territórios que partilham laços históricos e culturais, bem como desafios comuns.
Foi ainda anunciada a Exposição de Pintura Espanhola Moderna, no Petit Palais, em Paris, neste ano de 1919, onde se apresentará arte moderna espanhola – incluindo a obra de Goya –, com destaque para a cooperação cultural franco-espanhola no pós-guerra. A exposição poderá ser visitada entre 12 de abril e 31 de maio.
[1] O pavilhão erguido na ilha para selar o Tratado de Paz dos Pirenéus em 1660 é um facto histórico, tendo sido uma das últimas obras de Diego Velázquez. O pintor sevilhano ascendeu na corte de Filipe IV e, na altura, ocupava o cargo de pensionista real. Foi, por isso, o responsável pela logística do acordo e, sobretudo, pelo acontecimento que o selou: o casamento entre Maria Teresa de Áustria, filha de Filipe IV, e o rei francês Luís XIV.
Gravura de 1660 representando o Tratado dos Pirinéus (autor desconhecido). / Engraving from 1660 depicting the Treaty of the Pyrenees (artist unknown).
«A renascença da Unión Galaico-Portuguesa», Rosa Ricoy
Georges Clemenceau: Georges Clemenceau – Wikipédia, a enciclopédia livre
Ilha da Paz/L’île des Faisans: Émile Loubet: Rioja, I. (2022). España pierde la isla de Irún que reunió a Felipe IV, Luis XIV, Velázquez y D’Artagnan… hasta febrero de 2023. 02/08/2022. El Diario.es. https://www.eldiario.es/euskadi/espana-pierde-isla-irun-reunio-felipe-iv-luis-xiv-velazquez-d-artagnan-febrero-2023_1_9216206.html
Pavilhão de Diego Velázquez: Olazabal, B. (2018). A ‘resurrección’ do pavillón que ideou Diego Velázquez na Illa dos Faisanes. 31/03/2018. Diario Vasco. https://www.diariovasco.com/culturas/resurreccion-pabellon-ideo-20180331112955-nt.html?ref=https%3A%2F%2Fwww.diariovasco.com%2Fculturas%2Fresurreccion-pabellon-ideo-20180331112955-nt.html%3Fref%3Dhttps%3A%2F%2Fwww.diariovasco.com%2Fculturas%2Fresurreccion-pabellon-ideo-20180331112955-nt.html; Sáinz, L. I. (2006). A illa dos faisanes: Diego de Velázquez e Felipe IV Reflexións sobre as representacións políticas. Argumentos 19(51), 147-167. https://www.scielo.org.mx/pdf/argu/v19n51/v19n51a6.pdf
Exposição de Pintura Espanhola no Petit Palais: Gracia, G. J. (2024). Reciprocidad y diplomacia cultural hispano-francesa: Goya y la Exposition de peinture espagnole moderne de París (1919). Archivo español de arte, 97(388), 1361-1361
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